sexta-feira, outubro 24, 2008

Drama das menindas de Botafogo e Guta

“Duas irmãs buscam no sexo e na noite do Rio de Janeiro uma resposta para escapar ao vazio de suas vidas. Abandonadas pelo pai, que deixou a família e criadas pela mãe ausente, Marília e Marina se apóiam uma na outra e buscam um caminho. Sem guia ou referência, em meio a noitadas sem memória e relações sem sentido, elas procuram uma saída - qualquer saída. Baseado no poema de Vinicius de Moraes.”
Puxa vida, ontem cheguei em casa, na verdade não estava em casa, estava na casa do... deixa pra lá, isso merece outro post. Então, e estava no último capitulo do filme Balada de duas meninas de Botafogo. Queria tanto ver este filme.O filme conta com digníssima atriz da cena independente brasileira Guta Stresser. Apesar da Grande Família não ser um programa independente, mas que por mim entraria na história da telinha como o TV Pirata.
Então, o filme é baseado na poesia de Vinicius de Moraes que deve ser lido. Larga de ser preguiçoso e lêem, viu?

Balada das duas mocinhas de Botafogo
(Vinícius de Moraes)
Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-moças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido
Seus oito lustros de vida
Davam a impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.
Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa aquela
Mãe pobre e melancolia.
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.
Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.
Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.
Oh, vida torva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!
Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em coca-cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.
E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Uivavam no seu vazio
E elas então se abraçavam
Se beijavam e se mordiam
Imitando coisas vistas
Coisas vistas e vividas
Enchendo as frondes da noite
De pipilares tardios.
Ah, se o sêmem de um minuto
Fecundasse as menininhas
E nelas crescessem ventres
Mais do que a tristeza íntima!
Talvez de novo o mistério
Morasse em seus olhos findos
E nos seus lábios inconhos
Enflorescessem sorrisos.
Talvez a face dos homens
Se fizesse, de maligna
Na doce máscara pensa
Do seu sonho de meninas!
Mas tal não fosse o destino
De Marília e de Marina.
Um dia, que a noite trouxe
Coberto de cinzas frias
Como sempre acontecia
Quando achavam-se sozinhas
No velho sofá da sala
Brincaram-se as menininhas.
Depois se olharam nos olhos
Nos seus pobres olhos findos
Marina apagou a luz
Deram-se as mãos, foram indo
Pela rua transversal
Cheia de negros baldios.
Às vezes pela calçada
Brincavam de amarelinha
Como faziam no tempo
Da casa dos tempos idos.
Diante do cemitério
Já nada mais se diziam.
Vinha um bonde a nove-pontos...
Marina puxou Marília
E diante do semovente
Crescendo em luzes aflitas
Num desesperado abraço
Postaram-se as menininhas.
Foi só um grito e o ruído
Da freada sobre os trilhos
E por toda parte o sangue
De Marília e de Marina.

_ Este poema me arrepia.
Falando em Guta Stresser...


... esta menina “Clubber”, que tem um conhecimento da cena Underground em geral, que encantou a todos com seu personagem Bebel da Grande Família, e de vez os olhos dos grandes cineastas brasileiros. E acredito que em breve, ela ganhara um grande papel nas telonas internacionais. Vamos acreditar e torcer que um dia o Almodóvar passa dar uma chance a esta grande atriz muleca, que fez um papel dramático e sofrido no corpo de Nina. Por mim ganharia o Oscar.
_ Guta, torço por você garota.

Obs: Dedico este post a minha amiga Jornalista Daniele Sampaio, a “Nina”.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom...
valeu a pena naum ter preguiça e ler inteiro...
beijos..
pit bullllll

Danii disse...

Nossa, Rick, que inspiração para escrever, hein.
Adoro!
Desculpe a minha ausência eu ando meio perdida em relação ao que vou fazer da minha vida profissional.

Muito bonito o post, eu também, adoro a Guta. Adoro o Nina, muito bom, total dark.

Eu gostaria de vê-la em outro papel que não fosse Grande Família.

Amei a homenagem e volta a me amar.
Te amo, Rick. Você é um amigo único, sensacional que nunca esquecerei.

Beijos

Frederica Muniz Look the Sky Salgado da Silva disse...

:(